24 agosto, 2006

Psicologia humanística III - Carl Rogers e a Terapia centrada no Cliente (Contabilidade e Secretariado)


“Todos têm o potencial de crescer e a oportunidade de seguir em direção à auto-atualização”

O segundo grande expoente da psicologia humanística foi Carl Rogers (1902-1987), criador da terapia centrada no cliente, abordagem que encontrou grande número de adeptos entre os psicólogos clínicos dos anos 60 e 70. (Goodwin, p. 457). Sua teoria é fruto direto de sua própria história de vida. Rogers foi produto de um ambiente familiar altamente controlado, mas que, no entanto o trabalho e o empenho pessoal eram muito valorizados.
A essência da terapia centrada no cliente proposta por Rogers é simples. Primeiro, sintoniza aos ideais fundamentais da psicologia humanística, ele rejeitava a idéia de que era preciso mergulhar no passado do cliente para que a terapia surtisse efeito. Segundo, ele achava que se o terapeuta conseguisse criar o ambiente terapêutico certo, o cliente poderia assumir o controle da própria vida e crescer rumo à auto-atualização. (Goodwin, p. 459). (...)

TRECHO DE FONTE ORIGINAL
Rogers sobre a Criação de um Ambiente Terapêutico
Deparar-me com uma pessoa preocupada, conflituosa, que busca e espera encontrar ajuda, sempre constituiu para mim um grande desafio. Terei o conhecimento, os recursos, a força psicológica, a capacidade – terei seja o que for que precise para poder ajudar essa pessoa?
Há mais de 25 anos, venho tentando satisfazer esse desafio. Ele me fez buscar inspiração em cada elemento de minha formação: os rigorosos métodos de medição da personalidade do Teacher's College, columbia; os insights e métodos psicanalíticos freudianos do Insitute for Guidance, onde trabalhei como residente; os contínuos avanços no campo da psicologia clínica, que tenho acompanhado de perto; [...] e outros recursos demasiado numerosos para mencionar. Porém, acima de tudo, isso tem representado uma aprendizagem e contínua, não só com a minha própria experiência, mas também com a de meus colegas do Counseling Center, na medida do nosso esforço para descobrir, pela experiência direta, meios eficazes de trabalhar com pessoas em dificuldades. [...] (pp.31-32)

Ao descrever a sua filosofia fundamental da terapia, Rogers mostra como gradualmente se distanciou do modelo psiquiátrico do médico especialista que dirige o curso do tratamento para o paciente:
Uma forma concisa de descrever a mudança que ocorreu em mim é dizer que, nos meus primeiros anos de carreira, eu me perguntava: “Como posso tratar, curar ou mudar essa pessoa?” Agora eu reformularia essa pergunta da seguinte maneira: “Como posso fornecer uma relação que essa pessoa possa usar para seu próprio crescimento pessoal?”
Foi com a reformulação dessa pergunta que percebi que tudo o que aprendi é aplicável a todas as minhas relações humanas, e não apenas no trabalho com clientes que têm problemas. É por essa razão que acho possível que aquilo que aprendi e que para mim tem sentido tenha também algum sentido para você na sua experiência, já que todos nós estamos envolvidos em relações
humanas. [...] (p.32).

Esse último parágrafo toca num tema que permeia muitos dos escritos de Rogers. Embora estivesse desenvolvido sua abordagem terapêutica no contexto da terapeuta que tenta ajudar o cliente, ele achava que ela era igualmente útil para qualquer tipo de relacionamento humano. Conforme você verá, ele se detém nesse tema adiante no ensaio. Mas antes ele aborda o ponto principal, inicialmente formulado como uma hipótese geral, explicando cada um dos três componentes da hipótese:
Posso formular a hipótese geral numa oração da seguinte maneira: se eu conseguir estabelecer um certo tipo de relação, a pessoa descobrirá em si mesma a capacidade de usar essa relação para crescer, promovendo então a mudança e o desenvolvimento pessoal.
A Relação
Mas qual o sentido desses termos? Tomarei cada uma das três orações que compões esse período e tentarei explicar o sentido que elas têm para mim. Que tipo específico de relação é esse que eu gostaria de estabelecer?
Eu descobri que quando mais autêntico eu for no relacionamento, mais útil ele se torna. Isso significa que tenho de ter consciência de meus próprios sentimentos, [...] em vez de demonstrar exteriormente de meus próprios sentimentos, [...] em vez de demonstrar exteriormente uma atitude e, na verdade, ter outra no nível mais [...] profundo. Ser autêntico implica também a disposição de ser e manifestar, nas minhas palavras e no meu comportamento, os vários sentimentos e atitudes que há em mim. Só assim é que a relação pode ser real, e a realidade parece ser uma condição de profunda importância. Apenas se eu lhe der a realidade autêntica que há em mim é que o outro poderá buscar em si mesmo a realidade que há nele. [...]
A segunda condição é a seguinte: verifico que quanto maiores forem a
estima e a aceitação que eu der a esse indivíduo, mais estarei criando uma relação que ele possa usar. Com aceitação, refiro-me a uma consideração afetuosa por ele como uma pessoa cujo é inquestionável, não importa quais sejam seus problemas, seu comportamento e seus sentimentos. [...] Isso implica a aceitação e o interesse pelas suas atitudes no momento, independentemente de serem positivas e negativas e do quanto possam contradizer outras atitudes que ele adotou no passado. Essa aceitação de cada aspecto flutuante dessa outra pessoa torna essa relação uma relação de afeto e segurança para ela, e a segurança de ser estimado e valorizado como pessoa é um elemento muito importante numa relação de ajuda.
Além disso, acho que a relação é significativa na medida em que sinto
um desejo contínuo de compreender – uma empatia
sensível diante de cada sentimento e cada coisa que o meu cliente me comunica no momento. A aceitação não significa muito se não envolver a compreensão. Apenas quando eu entendo os sentimentos e pensamentos que lhe parecem tão horríveis, ou fracos, ou sentimentais ou bizarros; apenas quando eu os vir como você os vê e aceitar você e eles é que você se sentirá realmente livre para explorar todos os recônditos e rincões aterradores e geralmente inacessíveis de sua experiência interior. (pp. 33-34)


Esses três atributos constituem a essência da terapia centrada no cliente. A função do terapeuta não é diagnosticar e tratar, mas sim criar uma atmosfera saudável, no qual o cliente possa começar a mudar. Primeiro, o terapeuta deve ser autentico, o que implica que próprio deve ter saúde emocional. Embora Rogers não o diga, essa autenticidade também permita ao terapeuta servir de modelo para o tipo de saúde emocional buscado pelo cliente. Segundo, o terapeuta deve mostrar o que Rogers em outra parte chamou de olhar positivo incondicional. Ele implica a aceitação do valor da pessoa pelo simples fato de ser um ser humano. Em termos práticos, representa evitar rótulos. Por exemplo, certa vez em um fita em que Rogers conversava com um adolescente que havia uma série de problemas. O garoto, muito defensivamente, começa a conversa dizendo que imaginava Rogers devia ter muita experiência no trabalho com delinqüentes. Rogers, muito calmamente, simplesmente disse que preferia pensar nele como “Mike”. A mensagem era: o garoto era uma pessoa, e não o rótulo “delinqüente”. O terceiro componente de uma relação eficaz entre terapeuta e cliente, a empatia, decorre da proposição filosófica humanística de que a realidade é a realidade conforme percebida e vivida pela pessoa. Portanto, para compreender alguém, é preciso tentar compreender como essa pessoa vê as coisas. Rogers reconhecida a impossibilidade de compreender inteiramente outra pessoa, mas o que contava era o esforço. Esse esforço abrangia a principal técnica terapêutica usada por Rogers, a reflexão: tomar algo dito pelo cliente e verbalizá-lo de tal forma que ele conclua que “esse terapeuta entende o que eu estou dizendo”. Como exemplo, vejamos esta transcrição de uma sessão de terapia com Rogers:

Cliente: Eu acho que, do ponto de vista prático, se poderia dizer que o que eu devia estar fazendo é resolver alguns [...] problemas do dia-a-dia. E, no entanto, [...] o que eu estou tentando fazer é resolver [...] outra coisa que é muito [...] mais importante que os pequenos problemas do dia-a-dia.
Terapeuta: Imagino se isso iria distorcer o que você quer dizer: que, de um ponto de vista realista, você devia empregar o seu tempo refletindo sobre certos problemas específicos. Mas você se pergunta se não está em busca do seu eu total e se isso não será mais importante que a solução dos problemas do dia-a-dia.
Cliente: Acho que é isso. Acho que é isso, sim. É provavelmente o que eu queria dizer.

Se consegue estabelecer ambiente terapêutico apropriado, o terapeuta obtém bons resultados, segundo Rogers. E ele foi muito claro quanto à certeza que tinha disso:
[...] Eu diria então que quando tenho em mim as atitudes que descrevi e quando o outro pode até certo ponto vivenciar essas atitudes, acredito que a mudança e o desenvolvimento pessoal invariavelmente ocorrerão – e eu só usei a palavra “invariavelmente” depois de uma longa e atenta consideração.
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Fonte:
GOODWIN, C. James. História da psicologia moderna. Trad. de Marta Rosas. São Paulo: Cultrix, 2005. Pp. 457-462.
Digitação de ? (Aluna da Turma 612 - Secretariado)

Um comentário:

T 513 disse...

André, Guilherme, Felipe, Dianne e Simone estiveram aqui "sor"!!!