30 setembro, 2007

Percepção

Por Melissa Bergmann

O significado originário do termo percepção expressa a apreensão de um determinado objeto real. Para Kant (2000), o conhecimento empírico (a posteriori) prevê o contato com um objeto real (sensação). Essa sensação é possível devido à receptividade do sujeito para captar as representações dos objetos. Após a sensação, o indivíduo passaria a pensar o objeto, isto é, passaria ao entendimento. Dessa forma, a percepção seria “a consciência empírica”, em que há simultaneamente sensação, estando também relacionada a ela o ato judicativo (juízo).
Outro conceito de percepção é a designação mais específica desse processo, que se constitui em uma operação determinada do homem em suas relações com o ambiente. É a interpretação dos estímulos e a construção de seus significados. Essa definição expressa a utilização do termo percepção pelas teorias psicológicas. A percepção, de acordo com essas correntes, é um processo baseado na totalidade, não existindo sensações elementares na composição de um objeto. Outro grupo de teorias dá maior importância aos fatores e às condições subjetivas. Entre seus proponentes, Dewey e Bentley propõem que “a natureza da percepção deriva da situação total em que está inserida e tem suas raízes tanto na experiência passada do indivíduo quanto de suas expectativas de futuro” (ABBAGNANO, 2000). Nesse caso, a percepção seria um processo ativo e seletivo.
De acordo com Bergson (1999), a percepção mede nossa ação virtual sobre as coisas, limitando-se aos objetos que influenciam nossos órgãos, onde os estímulos recebidos relacionam-se com a complexidade motora de nosso corpo, estabelecendo ações possíveis. A percepção está relacionada à ação, ao movimento, e o papel da memória é o de evocar as percepções passadas análogas à presente, buscando a decisão mais útil. Conforme Merleau-Ponty (1999), a consciência confronta as recordações com os dados presentes, retendo somente aqueles que se harmonizam com elas.
A composição do mundo “verdadeiro” é dada pela percepção, através das semelhanças e contigüidades. Segundo Bergson (1999), percebemos as semelhanças antes dos indivíduos que se assemelham, o todo antes das partes. Vamos do todo às partes, num trabalho de decomposição. Para Merleau-Ponty (1999), a percepção não é facultativa enquanto a vida está integrada à nossa existência concreta num determinado ambiente humano ou físico. Além da distância física que existe entre nós e todas as coisas, a distância vivida mede, a cada momento, a “amplidão” de nossa vida.
“É percebido tudo aquilo que faz parte de meu ambiente, e meu ambiente compreende tudo aquilo cuja existência ou inexistência, cuja natureza ou alteração contam para mim praticamente” (MERLEAU-PONTY, 1999). O autor afirma ainda que o percebido pode ser uma “unidade de valor” presente praticamente. Bergson (1999) também fala do útil, colocando-nos a oscilação de nossa vida psicológica entre as funções sensório-motoras e à vida imaginativa. A consciência atual aceita a cada instante o útil, e rejeita momentaneamente o supérfluo. Portanto, a consciência atual é a materialização das antigas percepções que se organizam na percepção atual, e que se direcionam à ação.
“Meu presente [percepção] é aquilo que me interessa, o que vive para mim, o que me impele à ação, enquanto meu passado [lembrança] é essencialmente impotente” (Bergson, 1999).

__________
in: Bergmann, M. Análise da percepção ambiental da população ribeirinha do rio Santo Cristo e de estudantes e professores de duas escolas públicas, município de Giruá, RS. Dissertação (Mestrado em Ecologia), Instituto de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007.

Nenhum comentário: