31 outubro, 2007

Distinção entre Moral e Ética



Sempre procuro distinguir o termo moral de ética. Penso que ao longo da história da filosofia tal distinção não possa ser tão segura. Podemos perceber que em algumas obras sobre o assunto, filósofos usaram indistintamente tais termos para fazer referência a mesma problemática. Em minhas aulas procuro fazer a distinção de ambos.

Nesse sentido defino moral como sendo valores (certo e errado, bem e mal) que vigoram como permitido e ou proibido, ou melhor, valores que são praticados nos costumes de uma sociedade. São valores positivados no direito e na cultura de determinado grupo de indivíduos em um espaço e tempo. Vou clarificar o raciocino da seguinte forma:


No Brasil entre o período colonial até o final do Império, era considreado “normal” e portanto permitido o uso do trabalho escravo como força de produção. Neste período havia argumentos que fundamentavam a validade de tais práticas. Estas, portanto eram consideradas como lícitas.
Outro exemplo, agora em tempo atual, é a produção e abatimento (sacrifício, morte) em grande escala, por parte dos humanos, de outros mamíferos (como bovinos e ovinos) para fins alimentícios. Tal comportamento é exercido por argumentos que fundamentam o consumo de carne, por parte dos humanos, de outros seres. Não quero entrar aqui na defesa de consumir ou não carne, nem tão pouco tomar partido na defesa de práticas de alimentação vegetariana, ou de toda a dor que um bovino sente ao ser sacrificado, não. Quero é mostrar, que em sociedade, existem sempre valores que norteiam nossas ações e, por vez, esses sob a ótica do bem ou do mal permitem ou não tais ações.

Quanto a definição do termo ética, penso que esse é firmado sob reflexão. Reflexão que se faz de valores estabelecidos em sociedade e nossos comportamentos. Dessa forma, ética vem a ser consciência, e o uso desta por parte do individuo a si e também aos outros. Essa reflexão é (ou deve ser) acompanhada de atitudes e ações do indivíduo que a faz. Tal reflexão considera a consciência que o indivíduo tem de si, sobre seus impulsos, suas inclinações e paixões e os demais membros da sociedade, procurando guiá-lo para a boa ação, tanto para o agente como para os demais indivíduos.

Podemos afirmar, portanto, que ética é reflexão e ação sobre a moral. Comportar-se eticamente é pensar e agir de forma autônoma, esta voltada sempre para o meu bem e o do outrem.

Abraços, Jarbas Cardoso.

29 outubro, 2007

Sobre ética


Neste, e ao longo do próximo mês, pretendo postar aqui assuntos relacionados à ética. A intenção é provocar no leitor a reflexão sobre o tema, da mesma forma que contribuir para o enriquecimento de insumos norteadores (sempre para melhor) de suas ações em sociedade. A final, ao dialogarmos sobre ética, não há como desvincular esta de nossos comportamentos, ou melhor, de nossas atitudes e ações com relação a nós mesmos e aos outros.
Como o tema será desenvolvido em três cursos (Publicidade, Secretariado e Contabilidade) penso que quando necessário for, postarei no blog (em separado) os assuntos, ou melhor, ora no espaço destinado a publicidade e ora destinado a assuntos específicos do secretariado e contabilidade.
É claro que a ética deve ser pratica sempre, independente da situação ou momento.
Portanto ao longo do curso pretendo trazer para a discussão em sala de aula ou neste espaço (para aqueles que se aventurarem) temas como:

Fundamentos da ética

Ética deontológica

Ética Utilitarista

Relativismo Moral

Códigos de Ética

Penso que tais assuntos, se bem trabalhados, possam nos trazer respostas para perguntas do tipo:
O que é ética? Existe ética ou existem éticas? É importante saber sobre ética? Qual a diferença entre ética e moral? Como podemos guiar nossas ações de forma correta? Existem leis universais para nossas ações? Os fins justificam os meios? E a questão da divindade?
Abraços, Jarbas Felicio.

22 outubro, 2007

Para entender a pós-modernidade



Por RAYMUNDO DE LIMA*
A idéia de "pós-modernismo" surgiu pela primeira vez no mundo hispânico, na década de 1930, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Perry Anderson, conhecido pelos seus estudos dos fenômenos culturais e políticos contemporâneos, em "As Origens da Pós-Modernidade" (1999), conta que foi um amigo de Unamuno e Ortega, Frederico de Onís, que imprimiu o termo pela primeira vez, embora descrevendo um refluxo conservador dentro do próprio modernismo. Mas coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, com a publicação "A Condição Pós-Moderna" (1979), a expansão do uso do conceito.
Em sua origem, pós-modernismo significava a perda da historicidade e o fim da "grande narrativa" - o que no campo estético significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e da cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado.
A densa obra de Frederic Jameson(1) "Pós-Modernismo" (1991), enumera como ícones desse movimento: na arte, Andy Warhol e a pop art, o fotorrealismo e o neo-expressionismo; na música, John Cage, mas também a síntese dos estilos clássico e "popular" que se vê em compositores como Philip Glass e Terry Riley e, também, o punk rock e a new wave"; no cinema, Godard; na literatura, William Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael Reed, de um lado, "e o nouveau roman francês e sua sucessão", do outro. Na arquitetura, entretanto, seus problemas teóricos são mais consistentemente articulados e as modificações da produção estética são mais visíveis.
Jameson aponta a imbricação entre as teorias do pós-modernismo e as "generalizações sociológicas" que anunciam um tipo novo de sociedade, mais conhecido pela alcunha "sociedade pós-industrial". Ele argumenta que "qualquer ponto de vista a respeito do pós-modernismo na cultura é ao mesmo tempo, necessariamente, uma posição política, implícita ou explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional em nossos dias".
Vale observar que Perry Anderson, ao ser convidado a fazer a apresentação do livro de Jameson, terminou escrevendo o seu próprio “As origens da pós-modernidade”, constituindo assim uma espécie de ‘introdução’ ao conceito. Nele diz que o modernismo era tomado por imagens de máquinas [as indústrias] enquanto que o pós-modernismo é usualmente tomado por “máquinas de imagens” (p.105) da televisão, do computador, da Internet e do shopping centers. A modernidade era marcada pela excessiva confiança na razão, nas grandes narrativas utópicas de transformação social, e o desejo de aplicação mecânica de teorias abstratas à realidade. Jameson observa que “essas novas máquinas podem se distinguir dos velhos ícones futuristas de duas formas interligadas: todas são fontes de reprodução e não de ‘produção’ e já não são sólidos esculturais no espaço. O gabinete de um computador dificilmente incorpora ou manifesta suas energias específicas da mesma maneira que a forma de uma asa ou de uma chaminé” (citado por Anderson, p.105).
Para Gianni Vattino (2001)
“a chamada "pós-modernidade" aparece como uma espécie de Renascimento dos ideais banidos e cassados por nossa modernidade racionalizadora. Esta modernidade teria terminado a partir do momento em que não podemos mais falar da história como algo de unitário e quando morre o mito do Progresso. É a emergência desses ideais que seria responsável por toda uma onda de comportamentos e de atitudes irracionais e desencantados em relação à política e pelo crescimento do ceticismo face aos valores fundamentais da modernidade. Estaríamos dando Adeus à modernidade, à Razão (Feyerabend) Quem acredita ainda que "todo real é racional e que todo real é racional"(Hegel)? Que esperança podemos depositar no projeto da Razão emancipada, quando sabemos que se financeiro submetido ao jogo cego do mercado? Como pode o homem ser feliz no interior da lógica do sistema, onde só tem valor o que funciona segundo previsões, onde seus desejos, suas paixões, necessidades e aspirações passam a ser racionalmente administrados e manipulados pela lógica da eficácia econômica que o reduz ao papel de simples consumidor”.
O pensador brasileiro Sérgio Paulo Rouanet no seu estudo “As origens do Iluminismo” (1987) oportunamente observa que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (a modernidade) do que de articular o novo (o pós-moderno). Ou seja, o que há é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”. Rouanet escreve:
“depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Aushwitz, depois de Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo está cansado da modernidade. Todos esses males são atribuídos ao mundo moderno. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que estamos transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura já ocorreu, ou está em vias de ocorrer (...). O pós-moderno é muito mais a fadiga crepuscular de uma época que parece extinguir-se ingloriosamente que o hino de júbilo de amanhãs que despontam. À consciência pós-moderna não corresponde uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade. É literalmente, falsa consciência, porque consciência de uma ruptura que não houve, ao mesmo tempo, é também consciência verdadeira, porque alude, de algum modo, às deformações da modernidade”.
(...)
Alguns sintomas no sujeito pós-moderno

Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, primeiro, o moderno essencialmente como contraditório. É na modernidade que Freud e depois mais radicalmente W. Reich, ambos estabelecem a conexão repressão sexual e enfermidades mentais. Segundo, a sociedade pós-moderna irá favorecer o surgimento de um hedonismo socializado pela mídia e, de certa forma, respondida pela própria sociedade como sintoma “sociedade espetáculo” (Debord).
Na sociedade ocidental pós-moderna a visibilidade de cenas tende a ser obscena, quando exclui a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, anula-se a dimensão do privado, tornando “tudo” público, do cotidiano dos ansiosos por fama dos ex-anônimos do programa televisivo Big Brother, aos já famosos da revista Caras, e, também, o ritual histérico dos evangélicos, dos carismáticos e islâmicos, que se oferecem para serem vistos pela televisão seduzindo todos com suas “justas causas”, aos miseráveis igualmente noticiados e fotografados decorrentes de algum fato jornalístico.
Os sintomas de obscenidade da era moderna de exploração sexual ou de exploração do trabalho, operavam sempre no oculto, eram marginalizadas aos subterrâneos da vida social. Os dispositivos ideológicos de manutenção das cosias como estavam, eram a opressão social, a repressão psíquica e o trabalho ideológico de recondução da libido para fins de trabalho ou exploração industrial; hoje, na sociedade pós-moderna, reforçando o que foi dito acima, operam mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretasse o fim do segredo ou o fim da intimidade.
A doença da era moderna era a histeria, onde ocorria a teatralização do sujeito incapaz de suportar tanta repressão, originada no conflito endopsíquico. Freud funda a psicanálise graças às histéricas que lhe insinuam um gozo impossível. O mal-estar da cultura pós-moderna é mais complexo, os sintomas subjetivos se pulverizaram no disfarce coletivo, parecendo que “estamos todos bem”, tal como auto-enganava o personagem de Marcelo Mastroianni, no filme italiano de mesmo nome. O mal-estar pós-moderno é visível e trivial, expressado na linguagem do cotidiano do trabalho compulsivo, muitas vezes vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”, que gera stress, a perversão, a depressão, a obesidade, o tédio.
Em termos de patologia social, a modernidade fez surgir coisas contraditórias como indústrias e a atitude liberal, a ciência, a tecnologia, a multiplicação da população pobre e de guerras racionais. A pós-modernidade marca o declínio da Lei-do-Pai, cujo efeito mais imediato no social é a anomia, onde a perversão se vê livre para se manifestar em diversas formas, como na violência urbana, no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas”, “limpas” ou “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Isto é, não basta ser transgressivo, ou perverso-imoral, é preciso se construir uma justificativa “moral” para atos imorais ou perversos. Zizek (2004) cita o escabroso caso dos necrófilos, nos EUA, que se julgam no “direito” de fazer sexo com cadáveres. Ou seja, qualquer cadáver é “um potencial parceiro sexual ideal de sujeitos ‘tolerantes’ que tentam evitar toda e qualquer forma de molestamento: por definição, não há como molestar um cadáver”.
Na pós-modernidade a perversão e o estresse são sintomas resultados da falta-de-lei, da falta-de-tempo, e da falta-de-perspectiva de futuro, porque tudo se desmoronou (do muro de Berlin a crença nos valores e na esperança). “Tudo se tornou demasiadamente próximo, promíscuo, sem limites, deixando-se penetrar por todos os poros e orifícios”, diz Zizek.
Nossa sociedade é regida mais do que pela ânsia de “espetáculo”; existe a ânsia de prazer a qualquer preço, não made in id [Isso] mas made in Superego. O superego pós-moderno “tudo vale” e “tudo deve porque pode”. Todos se sentem na obrigação de se divertir, de “curtir a vida adoidado” e de “trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social”, não importando os limites de si próprio e dos outros. As pessoas se sentem no dever de se vender como se fosse um prazer, de fazer ceia de natal em casa à meia noite, de comemorar o gol que todo mundo está comemorando, de curtir o carnaval nos 3 ou 4 dias, de seguir uma religião, de usar celular sem motivo concreto, de gastar o dinheiro que não têm, de trepar toda noite porque todos dão a impressão de fazê-lo, de fazer cursos e mais cursos, ascender na empresa, escrever mil e um artigos por ano na universidade, enfim, todos parecem viver na “obrigação” de se cumprir uma ordem invisível, e de ser visivelmente feliz e vencedor. O senhor invisível que no manda é o superego pós-moderno; “ele manda você sentir prazer naquilo que você é obrigado a fazer”. E, ai daquele que não consegue, ou que se nega seguir a moral de rebanho, pagará de três modos: será estigmatizado pelos seus pares (“Ele quebrou o código, é um traidor do super-ego pós-moderno!”), ou pagará com um terrível sentimento de culpa ou, ainda, sofrerá os sintomas de uma doença psicossomática.
Não é sem motivo que os lugares de trabalho em que a competição é mais acirrada, onde não existem limites definidos entre trabalho, estudo e lazer, que encontramos pessoas queixosas, infelizes, freqüentemente visitando os médicos e hospitais. Se a modernidade prometia a felicidade através do progresso da ciência ou de uma revolução, a pós-modernidade promete um nada que pretende ser o solo para tudo.
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* Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)
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Notas
(1) Perry Anderson considera Jameson um sujeito bem à esquerda de qualquer das fuguras incluídas nesse levantamento [p.77].
(2) Anderson, 1999: p. 77.
(3) Cf.: Japiassu, 2001.
(4) Japiassu (op. cit, p. 167 e 182-3) observa que a crença da marcha ascendente da humanidade em direção a um telos (fim), têm inspiração num desígnio traçado e querido por Deus para o bem da humanidade. A idéia de progresso (característica do Ocidente a partir do iluminismo e da Revolução Francesa) remonta às nossas fontes judaico-cristãs. A maioria de outras civilizações vive sem a idéia de progresso. Algumas chegam mesmo a recusar toda crença na historicidade. Para o hiduísmo, por exemplo, o homem não sai do eterno retorno. Para o budismo, o sujeito deve libertar-se dos acontecimentos, portanto da História. O mesmo se aplica ao sujeito da história, por exemplo, para o taoísmo “o único desejo autorizado é não ter desejos” (Cf.: Lao Tsé, em Tao te king) .
(5) Notem que essas ações antigamente – e ainda hoje - são criticadas pela esquerda marxista como “filantropista”, “reformista”, etc.
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Referências bibliográficas
ANDERSON, P. As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
CARDOSO, C. F. Paradigmas rivais na história atual. In: Educação & Sociedade, n. 47, abril/ 1994, pp. 61-72.
GHIRALDELLI JR, P. A pedagogia marxista brasileira e o “esgotamento das energias utópicas da sociedade do trabalho”: um caso de não enfrentamento. In: Educação e razão histórica. São Paulo: 1994.
JAPIASSU, H. Desistir do pensar? Nem pensar! São Paulo: Letras & Letras, 2001.
ROUANET, S.P. As razões do iluminismo. São Paulo: C. Letras, 1987, pp. 229-77.
SAVIANI, D. O debate teórico e metodológico no campo da história e sua importância para a pesquisa educacional. In: História e história da educação. Campinas, 1997.
________. Educação e questões da atualidade. São Paulo: Cortez-Tatu, 1992.
VATTINO, V. O fim da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2001?
ZIZEK, S. O superego pós-moderno. In: Folha S.Paulo – cad. Mais!, 23/05/2003.
________. A paixão na era da crença descafeinada. In: Folha S. Paulo-Mais!, 14/mar/2004, p. 13-15.
________. Eles não sabem o que fazem. O sublime objeto da ideologia. Rio: J. Zahar, 1992.