30 maio, 2009

O conceito de meio ambiente II



Por Melissa Bergmann e Jarbas Felicio Cardoso

A questão ambiental que se faz presente em nosso cotidiano, como fator preocupante, é recente, tornou-se relevante a partir do século xx e com mais vigor só na sua segunda metade. Esta temática surgiu com a tese de que se vive uma crise ambiental. A crise ambiental foi inicialmente interpretada como crise da natureza, em que o equilíbrio entre os fatores bióticos (seres vivos) e abióticos (não-vivos) foi desestruturado. Atualmente a questão é mais ampla e não se refere apenas à vida de seres animais e vegetais em seu ambiente natural, mas também a uma questão social e, acima de tudo ética, logo, humana: “como devemos agir em relação ao Meio Ambiente?”
Fazendo uma abordagem sobre o conceito de meio ambiente podemos afirmar que os significados das palavras “meio” e “ambiente” referem-se a variadas questões. Tradicionalmente, a palavra “meio” tem conotação advinda do conhecimento científico experimental, mais relacionada ao sentido de substância. O termo “ambiente” fora utilizado em épocas passadas como “circunstâncias”, isto é, como os fatores circundantes que influiriam na vida dos seres vivos. A expressão “meio ambiente”, portanto, é mais restritiva do que “ambiente”, referindo-se ao “meio” "circundante”.
O meio ambiente é considerado como um lugar determinado ou percebido, onde ocorre interação entre os elementos naturais e sociais. Essa interação implica processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformações do meio natural e construído. Por isso, pensar o meio ambiente é pensar a natureza e os espaços modificados pela ação humana. É considerar a importância das matas e da biodiversidade, mas também valorizar o ambiente urbano.
Na próxima semana vivenciaremos a Semana Mundial do Meio Ambiente e, portanto, tal conceito exige de nós, seres livres e conscientes, uma reflexão sobre nossa condição com relação ao que nos circunda. Cabe no mínimo o questionamento: será que estamos de fato cuidando de nosso meio ambiente?
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Texto publicado no Jornal Folha Giruaense em 30/05/2009.

Por que secam as fontes


Por Melissa Bergmann e Jarbas Felicio Cardoso

Houve um tempo em que a preocupação com a escassez da água era coisa que chegava até nós giruaenses somente através do noticiário. Falta de água potável era problema de nossos patrícios do nordeste. É claro que, de tempo em tempo, sempre enfrentamos estiagem e falta de chuvas e isso não é de hoje. O fato é que nos últimos anos essa realidade vem cada vez mais se agravando, ficando evidente para todos. Fato concreto desse argumento é, por exemplo, o relato de moradores da localidade do Rincão Melgarejo. Contam estes que em 2005 nunca se viu o riacho (conhecido por sanga) que corta a localidade com tão pouca água.
Na atualidade, em Giruá, nos deparamos com uma estiagem que para muitos pode parecer normal. Mesmo assim, o número de famílias do interior do município que se encontram sem água para beber em suas propriedades é estarrecedor. Nunca houve, por exemplo, necessidade de a prefeitura levar água para residências do meio rural. Cabe a nós nos questionarmos sobre tais fatos. Por que estão secando nossas fontes de água? Será que dentro dessa “normalidade” de escassez das chuvas não está acrescida também a intervenção de nossas ações?
O Brasil é um país rico em águas superficiais e subterrâneas para consumo humano. Comparativamente, Giruá não difere de tal posição. Com altitude entre 300-400 metros, é local de afloramento de muitas nascentes. Entretanto, a alteração dos ambientes pode estar modificando os ciclos hídricos. O solo, com pouca ou desprovido de qualquer vegetação, já não retém a água das chuvas, que carrega consigo parte do material superficial, ocasionando erosão e assoreamento nos rios.
Relevantes ecossistemas são também as áreas alagadas, como os banhados, que apresentam flora e fauna características, e são funcionalmente importantes como reservatórios de água. São responsáveis pela atenuação de cheias e atuam na recarga e descarga de águas subterrâneas. Os banhados, no entanto, estão ameaçados no Rio Grande do Sul pelas drenagens (retirada de água) para diversos fins. Isso compromete o armazenamento de água no subsolo.
Embora não existam estudos concludentes sobre a crise da água que vive nossa região, faz-se necessário e com urgência fazermos uma reflexão sobre nossas ações. Ou achamos uma solução para conciliar produção e respeito aos ecossistemas ou nos encaminharemos para uma situação calamitosa em que nossas fontes de água cada vez mais irão sucumbir.
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Texto publicado no Jornal Folha Giruaense em 02/05/2009.

13 março, 2009

IGREJA E PATRIARCADO











Por Luciano Gonçalves Soares*

Recentemente assistimos à notícia de excomunhão de uma criança de 11 anos e de sua mãe em Pernambuco. A criança fora estuprada e corria risco de morte. Paira sobre o risco de morte da menina, a causa primacial de mãe e filha serem mulheres e pobres, portanto vítimas da prepotência do poder masculino, que traduz nas relações sexuais as posições de poder socieconômico ao longo da História. O bispo pernambucano José Gomes Sobrinho, ao excomungar as mulheres pobres vítimas de uma violência antes de mais nada patriarcal, não exprobrou com a mesma pena o estuprador, alegando que para a Igreja Católica o aborto é mais grave do que o estupro. Não é bem assim.
Quem conhece a história das igrejas, e a forma como a Igreja Católica adquiriu e manteve o predomínio sobre as consciências humanas por longos anos no Ocidente, não podia esperar outra decisão do bispo de Olinda. Toda igreja é um sujeito situado historicamente, e por isso analisável nas relações que mantém com os grupos humanos e nos posicionamentos a respeito da igualdade ou desigualdade entre os grupos.
Ora, os povos europeus e americanos que sofreram influência ideológica católica não conheceram harmonia nas relações humanas. Pelo contrário, a história ocidental assinala-se por lutas de classes com interesses econômicos antagônicos e inconciliáveis. A maneira como esses antagonismos se resolveram foi a violência: a guerra, o extermínio de povos americanos, a destruição de línguas, culturas e identidades dos grupos de pessoas vencidas e a submissão, econômica antes de tudo, total dos derrotados. Os humanos vencedores justificavam-se ideologicamente, com a atribuição de sua vitória a entidades divinas, sobrenaturais.
Nesse contexto a Igreja Católica Romana surgiu. Roma foi a sede de um dos maiores impérios político-econômicos que houve na História. O predomínio das opiniões e doutrinas do bispo de Roma sobre os de outras capitais importantes para o Cristianismo, como Istambul, Cartago e Antioquia deve-se unicamente ao prestígio geoeconômico dos poderosos ligados ao bispado de Roma durante toda a Idade Média, a ponto de a Igreja Católica formar um Estado – o Vaticano.
Portanto, qual foi a orientação ideológica que o Vaticano imprimiu ao Cristianismo? A justificação dos poderosos com os quais entretinha interesses. Os bispos de Roma coroavam e abençoavam os reis da Europa ocidental, e as monarquias desse lado europeu pagavam, na forma de tributos ao Papa, a pompa vaticana. Que esperar das encíclicas senão a legitimação do status?
Tal legitimação revestiu-se da bênção divina ao patriarcado, regime social em que a autoridade máxima pertence aos homens que exercem as decisões políticas e econômicas, e exigem a obediência dos homens socialmente subalternos, das crianças e das mulheres. Por não exercerem a guerra e as atividades que enriqueciam – e que eram e são a motivação de todas as guerras – as mulheres e as crianças foram destinadas à obediência masculina, a qual se devia no lar ao marido e pai, esteio econômico da família, mas principal e realmente aos homens que de fato exerciam o poder político e econômico sobre o seu marido e pai.
A finalidade ideológica do Vaticano, no seio da família, era, e não mudou, aconselhar a obediência ao pai e marido, para ir pro céu. Quem desobedece ao patriarcado, ofende a Deus, e a essas mulheres e crianças rebeldes estava, e continua sendo, destinado o inferno. Por isso, pela legitimação do patriarcado, o Vaticano – Estado e órgão oficial da Igreja Católica – sempre se manteve omisso à violência doméstica, que é antes de tudo a violência legitimada pelas relações socieconômicas do patriarca sobre os seus subalternos.
Ao excomungar as vítimas do estupro em Olinda, por causa do aborto, e absolver pela omissão o estuprador, o bispo de Olinda foi absolutamente fiel à orientação do Vaticano, que não mudou: a finalidade da Igreja Católica é legitimar as relações de poder. No seio da família, tais relações se traduzem pela legitimidade do macho da casa em estuprar as fêmeas.

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* Professor de Língua Portuguesa na Faculdade Batista Pioneira de Ijuí
Professor de Língua Portuguesa e de Literatura no Instituto João XXIII – Giruá -RS