13 março, 2009

IGREJA E PATRIARCADO











Por Luciano Gonçalves Soares*

Recentemente assistimos à notícia de excomunhão de uma criança de 11 anos e de sua mãe em Pernambuco. A criança fora estuprada e corria risco de morte. Paira sobre o risco de morte da menina, a causa primacial de mãe e filha serem mulheres e pobres, portanto vítimas da prepotência do poder masculino, que traduz nas relações sexuais as posições de poder socieconômico ao longo da História. O bispo pernambucano José Gomes Sobrinho, ao excomungar as mulheres pobres vítimas de uma violência antes de mais nada patriarcal, não exprobrou com a mesma pena o estuprador, alegando que para a Igreja Católica o aborto é mais grave do que o estupro. Não é bem assim.
Quem conhece a história das igrejas, e a forma como a Igreja Católica adquiriu e manteve o predomínio sobre as consciências humanas por longos anos no Ocidente, não podia esperar outra decisão do bispo de Olinda. Toda igreja é um sujeito situado historicamente, e por isso analisável nas relações que mantém com os grupos humanos e nos posicionamentos a respeito da igualdade ou desigualdade entre os grupos.
Ora, os povos europeus e americanos que sofreram influência ideológica católica não conheceram harmonia nas relações humanas. Pelo contrário, a história ocidental assinala-se por lutas de classes com interesses econômicos antagônicos e inconciliáveis. A maneira como esses antagonismos se resolveram foi a violência: a guerra, o extermínio de povos americanos, a destruição de línguas, culturas e identidades dos grupos de pessoas vencidas e a submissão, econômica antes de tudo, total dos derrotados. Os humanos vencedores justificavam-se ideologicamente, com a atribuição de sua vitória a entidades divinas, sobrenaturais.
Nesse contexto a Igreja Católica Romana surgiu. Roma foi a sede de um dos maiores impérios político-econômicos que houve na História. O predomínio das opiniões e doutrinas do bispo de Roma sobre os de outras capitais importantes para o Cristianismo, como Istambul, Cartago e Antioquia deve-se unicamente ao prestígio geoeconômico dos poderosos ligados ao bispado de Roma durante toda a Idade Média, a ponto de a Igreja Católica formar um Estado – o Vaticano.
Portanto, qual foi a orientação ideológica que o Vaticano imprimiu ao Cristianismo? A justificação dos poderosos com os quais entretinha interesses. Os bispos de Roma coroavam e abençoavam os reis da Europa ocidental, e as monarquias desse lado europeu pagavam, na forma de tributos ao Papa, a pompa vaticana. Que esperar das encíclicas senão a legitimação do status?
Tal legitimação revestiu-se da bênção divina ao patriarcado, regime social em que a autoridade máxima pertence aos homens que exercem as decisões políticas e econômicas, e exigem a obediência dos homens socialmente subalternos, das crianças e das mulheres. Por não exercerem a guerra e as atividades que enriqueciam – e que eram e são a motivação de todas as guerras – as mulheres e as crianças foram destinadas à obediência masculina, a qual se devia no lar ao marido e pai, esteio econômico da família, mas principal e realmente aos homens que de fato exerciam o poder político e econômico sobre o seu marido e pai.
A finalidade ideológica do Vaticano, no seio da família, era, e não mudou, aconselhar a obediência ao pai e marido, para ir pro céu. Quem desobedece ao patriarcado, ofende a Deus, e a essas mulheres e crianças rebeldes estava, e continua sendo, destinado o inferno. Por isso, pela legitimação do patriarcado, o Vaticano – Estado e órgão oficial da Igreja Católica – sempre se manteve omisso à violência doméstica, que é antes de tudo a violência legitimada pelas relações socieconômicas do patriarca sobre os seus subalternos.
Ao excomungar as vítimas do estupro em Olinda, por causa do aborto, e absolver pela omissão o estuprador, o bispo de Olinda foi absolutamente fiel à orientação do Vaticano, que não mudou: a finalidade da Igreja Católica é legitimar as relações de poder. No seio da família, tais relações se traduzem pela legitimidade do macho da casa em estuprar as fêmeas.

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* Professor de Língua Portuguesa na Faculdade Batista Pioneira de Ijuí
Professor de Língua Portuguesa e de Literatura no Instituto João XXIII – Giruá -RS