19 novembro, 2015

BAUMAN E SUA CRÍTICA A MODERNIDADE

Por Jarbas Cardoso*


É outubro de 2015, mais precisamente dia 23. O canal de TV CNN, assim como os demais e principais meios de comunicação globais, transmitem de forma midiática e a todo momento a passagem do furacão Patrícia pelo México. Segundo informações e análises de especialistas, Patrícia é o furacão mais forte que se tem registrado até o momento, com ventos que poderão chegar até 400 km/h, fazendo de seu poder de destruição equivalente ao de uma bomba nuclear. Do mesmo modo que aos canais de TV, os portais de internet de todos os jornais postam textos, vídeos e imagens captadas por satélites. Essas informações são disponibilizadas e atualizadas a todo o instante, sendo replicadas e compartilhadas via Feed de notícias nas redes sociais. Qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo e em tempo real, pode acompanhar as informações da trágica e pré-anunciada fa­talidade, que poderá, em poucos momentos, destruir a costa oeste do México.
O relato sobre o furacão Patrícia, independente de sua gravidade, é meramente um fato, assim como muitos outros que poderiam ser exemplificados para caracterizar a con­temporaneidade. Período que é caracterizado por avanços marcantes, em especial, na área da tecnologia e da comunicação, os quais fazem da informação algo imediato, com conec­tividade global e sem fronteiras. Essa rapidez de levar e trazer as informações em abran­gência global acaba por alterar a concepção de espaço e tempo e na forma de pensar e ser das pessoas.
É sobre esse fenômeno, sinônimo de fluidez e conectividade global, que Zygmunt Bauman, sociólogo e pensador da contemporaneidade, tece sua crítica. Segundo ele, vi­vemos em tempos líquidos onde todas as esferas da vida são afetadas. Nessa era de liqui­dez, Bauman aponta para dois aspectos centrais. O primeiro é referente a “vontade de li­berdade” inerente à constante busca pela individualização. O segundo é sobre a velocida­de, responsável pela “incoerência” das relações e pela alta exploração dos sujeitos. As coisas e as relações não são mais feitas para durar, há sempre novos “produtos”, mais modernos, atraentes e estimulantes para serem consumidos.

DA REDUÇÃO DO ESTADO À ANGUSTIA DAS RELAÇÕES PESSOAS
Para o filósofo Pondé, que analisa o pensamento de Bauman, na modernidade o Estado é cada vez menor, e quanto menor, menos atrapalha. Ele, o Estado, é cada vez mais “enxuto” e se descobriu como uma empresa ineficiente. Para o Estado funcionar de forma eficiente precisa encolher, e ao em encolher, o Estado vai se desfazendo de suas atribuições (a questão pública/social), sendo assim, o mesmo vai abrindo espaço para a iniciativa privada. Essa última, por sua vez, está mergulhada no mercado livre, o qual é o mais líquido de todos. Nesse cenário a cultura de mercado vai tomando conta de todas as relações, do mundo do trabalho, da educação, da cultura e do amor. Para Bauman, o mer­cado toma conta do amor, afirma Pondé.
 Em seu livro Amor Líquido, Bauman faz um recorte e direciona sua análise sobre as relações na modernidade, ou melhor, sobre a fragilidade dos laços humanos. Crítico da contemporaneidade afirma que existe uma fragmentação na vida social. A vida é dividida em episódios, tornando a(s) sociedade(s) individualizada(s). Essa fragmentação acaba por afetar relações, entre homem e mulher. Na atualidade quando se está em um relaciona­mento, as pessoas são atormentadas pela exigência de “qualidade”, na qual cada um dos envolvidos exigi “qualidade” na relação como se exige de um produto comprado em uma loja. Se a relação não está dentro de certa expectativa, a mesma é desfeita para iniciar uma nova relação. Esta exigência de “qualidade” nas relações se torna uma sombra, por­que as pessoas passam a observar a mesma, o tempo todo. A relação deve funcionar per­feitamente e segundo os desejos e vontades de cada um, do contrário, há a possibilidade de rompimento. As pessoas estão em uma relação, mas sabem que existem outras oportu­nidades, outras ofertas no meio, ou melhor no mercado, sabem também que podem ser trocadas, eis aí um dos medos em aprofundar uma relação, gerando incerteza e angustia.
Aprofundando a análise sobre a problemática dos relacionamentos, Bauman ar­gumenta sobre o “sexo puro” existente em nossos dias, o qual é pautado em “encontro pu­ramente sexual”, onde a inexistência de “restrições” compensaria a fragilidade do enga­jamento. A larga publicidade do sexo e as angústias dos relacionamentos superficiais au­mentam as incertezas da líquida vida moderna:
“Nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social. Pri­vado de seu antigo prestígio social e de significados que antes eram social­mente aprovados, o sexo cristalizava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína da líquida vida moderna.” (Bauman, 2006, p.74).
Ainda para Bauman, “qualificar os parceiros sexuais tornou-se o primeiro foco de ansiedade” pois mesmo no casamento, algo que deveria realizar o enlace de um casal, ge­rando confiança e segurança para ambos, esse, agora, é cenário de insegurança e angústia. A instituição casamento entrou na liquides das relações. Pois, os atuais poderes constituí­dos, já não parecem interessados em traçar a fronteira entre sexo “correcto” e “perverso”. Na liquidada era moderna muitas formas de atividade sexual não são apenas toleradas, mas frequentemente indicadas como terapias úteis. Isso tudo para oferecer objetivos “so­cialmente úteis” afirma Bauman. No fundo o objetivo único da exploração sexual é para fins mercadológico.
“A líquida sociedade moderna descobriu uma forma de explorar a propen­são/receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à re­pressão, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva desregulação do processo sublimatório, agora difuso e disperso, sempre a mudar o tempo todo mudando de direção e guiado pela sedução dos objetos de desejo sexual em oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas” (Bauman, 2006, p. 81).
Segundo Bauman é preciso ter identidade. Isso é importante, mas nossa sociedade é, atualmente, redefinida a cada momento. Passamos a vida redefinindo nossa identidade, porque há modelos e formas de vida atraentes e tentadoras, que mudam constantemente em nossas vidas. Coisas que entram e saem da moda rapidamente. O que é hoje, amanhã já não é mais. São mudanças constantes e não duradouras.

A LÍQUIDA ERA MODERNA E A RACIONALIDADE COMERCIAL DO SEXO
A contemporaneidade acaba por influir no enfraquecimento dos relacionamentos, exatamente devido ao frenesi constante de informações e mudanças. Se o amor, em sua concepção tradicional, está disposto ao sacrifício e à renúncia em função do ser amado, o “amor líquido”, por temer o futuro, aposta e é incentivado por especialista, em relaciona­mentos de curto prazo movidos, principalmente, pelo impulso e oportunismo. Vivemos, ou sofremos mudanças visíveis de configurações, percepção e interação em relação ao nosso tempo.
Bauman critica a racionalidade e o comércio do sexo, pois a cultura do consumo fez do sexo algo racional ao mesmo tempo que um negócio, descaracterizando toda uma magia do encanto e do amor. O Eros está em todo o lugar, mas não permanece em um mesmo local por muito tempo. O sexo deixou de ter função da procriação (compromissos que visavam a paternidade e maternidade), abrindo-se uma competição com a medicina para o papel reprodutivo. Fazendo referência ao sexólogo Sigush, o pensador da líquida era moderna afirma que existe a possibilidade de “escolher um filho num catálogo de do­adores atraentes quase da mesma forma como eles (os consumidores contemporâneos) es­tão acostumados a comprar pelo correio ou por meio de revistas de moda”.

QUANDO ESTÁ COM SEU TELEMÓVEL, NUNCA SE ESTÁ FORA OU LONGE
As redes sociais são feitas para conectar e para desconectar. A atividade do novo tipo de amizade, como por exemplo, do Facebook, é muito fácil conectar e estabelecer amizades, mas é fácil também desconectar e terminar uma relação. Em uma sociedade que não para de receber e enviar mensagens no telemóvel, a crítica do pensador está vol­tada para o fato de que tal apego a esta dinâmica tecnológica de relação diminuiu a pro­ximidade, mas beneficiou o afastamento. Segundo o mesmo, não é a facilidade de estabe­lecer conexão o que mais cativa as pessoas, pelo contrário, é a facilidade de rompê-las. É muito fácil não mandar um e-mail, excluir e bloquear alguém na conta do Facebook.
Esse tipo de afastamento também afeta o ambiente familiar. Os lares deixaram de ser espaços de intimidade em meio ao mundo externo. Ocorreu um rápido resfriamento dos laços afetivos familiares. Entramos em nossas casas e fechamos a porta, e então en­tramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de la­zer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado.
Onde há necessidade, há hipótese de lucro. Na era cinzenta, o mercado vai ao limi­te e quer vender até a solidariedade, um sorriso amigo, o convívio ou a ajuda no momento de necessidade, argumenta Bauman, fazendo o alerta para a tentativa do mercado entrar inclusive no que chama de Economia Moral.

ACEITAR O PRECEITO DO AMOR AO PRÓXIMO É O ATO DE ORIGEM DA HUMANIDADE
A frase acima diz muito sobre o que Bauman quer nos passar. Referindo-se a Freud, que aqui simplificamos através do jargão “civilização ou barbárie”, pode-se afir­mar que ele toca na ética kantiana, não necessariamente sobre imperativo categórico de Agir apenas segundo máxima na qual possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal, e sim na segunda máxima: Age de tal forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca apenas como um meio. Es­ses são preceitos que a contemporaneidade, em um exercício pedagógico, deve sugesti­vamente resgatar. Primeiro porque as pessoas têm desejos e objetivos, e as outras coisas têm valor para elas, em relação aos seus projetos. Ou melhor, as meras “coisas” têm valor apenas como meios para fins, sendo os fins humanos que lhes dão valor. Segundo, e ainda mais importante, os seres humanos têm um valor intrínseco, i.e., dignidade, porque são agentes racionais, ou seja, agentes livres com capacidade para tomar as suas próprias de­cisões, estabelecer os seus próprios objetivos e guiar a sua conduta pela razão. Ou seja, não é preciso amar o próximo, ou esperar algo em troca, mas é necessário respeitá-lo co­mo sujeito, um fim. 

OS ESPAÇOS URBANOS COMO ESPAÇOS DE SEGREGAÇÃO
Bauman diz que os nossos antepassados dispunham de poucos instrumentos, se é que tivessem algum, para agir efetivamente a longa distância. Mas estavam resguardados da exposição do sofrimento humano global. As relações e os acontecimentos eram locais, face a face.
Hoje com a ampliação dos espaços de comunicação de forma global, as pessoas estão conectadas no ciberespaço e trancadas em suas casas, em seus bairros ou condomí­nios muito bem protegidos. Isso para os que tem condição financeira. As casas, em muitos espaços urbanos, não estão mais para integrar as pessoas à sociedade, e sim para protegê-las da própria cidade. As cidades tornaram-se depósitos de lixo para os ploblemas gerados globalmente. Não são mais espaços de sociabilidade, de convívio e segurança, afirma Bauman. O público (Estado) como não tramita no ciberespaço, para o qual não há frontei­ras, ficou em âmbito local, mas com problemas trazidos pela globalização. No local, onde os mais apoderados financeiramente se cerca para ficar “fora” da excludente, do feio e do desconfortável da cidade, opta por ficar “dentro” dos oásis de calma e segurança. Quando surgem problemas sociais, esses são particularizados e com soluções encontradas no mer­cado. A questão de convívio e a problemática na cidade deixou, em muitos casos, de ser questão social. Nesse cenário de “confinamento” o medo é muito controlado e explorado ao mesmo tempo. Existe o medo de morrer com uma bala perdida, o medo de adoecer e não ter um plano médico. O medo de ser roubado ou agredido. Para Bauman, nesse cená­rio, a questão civitas ficou desprotegido e no silêncio do mandado ético.
 Quando a cidade se mostra muito perigosa, a elite financeira (camada superior) se muda para outro local. P. ex., no Brasil, com a atual crise política e económica, aumentou 30% o número de brasileiros que compraram casa e foram morar em Miami, EUA. Já os que não tem condições de comprar soluções ou se mudar, a tal camada inferior, esses fi­cam jogos em segundo plano, obrigados a viver no espaço local, muitas vezes excluídos, de todo um mundo social que ostenta o consumo. 

CONCLUSÃO
Bauman alertar sobre a necessidade de se desenvolver na humanidade o espirito de partilha para que seja novamente possível unir projetos individuais e ações coletivas. Nos convida para pensarmos so­luções aos desafios dados nesse início no novo século. Mesmo afirmando que ainda é ce­do para tentar apropriar-se antecipadamente da história para prever a forma que essa irá assumir e nos conduzir ao futuro. A busca de soluções terá que acontecer, afirma.
Enfim, é sempre difícil fazer crítica ao pensamento de um sábio. Dizem que um sábio erra, mas mesmo errando, erra sabiamente. O que podemos falar para Bauman é que para cada período de tempo à humanidade soube encontrar soluções a seus problemas. Em alguns momentos, Bauman é em demasia cético em relação a modernidade, no entan­to, conscientemente diz que ainda não se sabe aonde os atuais desafios irão nos levar, mesmo sendo sua crítica, parte da solução. Talvez uma releitura e retomada de alguns en­sinamentos clássicos do humanismo sejam sugestivos, a própria ética kantiana é um exemplo, à geração atual e as futuras. De igual forma, cabe a essas trabalhar e corrigir tais distorções, tanto no campo social quanto particular. A ferramenta das redes sociais, que possui alcance global, pode ser usada de forma mais ampla, para fins pedagógicos, na ten­tativa de despertar uma cultura onde se possa usar com mais responsabilidade a liberdade. Afinal, um martelo pode ser usado como arma, mas também em seu propósito de ferra­menta, na construção de casas.  
Sobre o furacão Patrícia horas após chegar à costa oeste do México, como o fura­cão mais forte já registrado pelas estações meteorológicas, o mesmo perdeu força e na madrugada de sábado, ao migrar mais para o interior do país, já era classificado como uma tempestade tropical, de acordo com informações da rede de TV norte-americana CNN. O furação trouxe prejuízos tanto humanos como materiais, mas em proporção bem menor do que o anunciado. 

Referência bibliográfica 
Bauman, Z. (2006) Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Lisboa: Relógio d’Água.  

Bibliografia complementar
Café Filosófico: O diagnóstico de Zygmunt Bauman para a Pós-Modernidade. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=6xt-k2kkvb4>. Acesso em: 13 out. 2015. 
 KANT, I. (1994) Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução: Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70.